Terços, entre estatuária a imitar pedra, pasta de madeira, ou até plástico translúcido, esverdeado, que promete uma apropriada reflexão luminosa, também ela esverdeada, em ambientes escuros. Tudo, ao lado de tudo, está à venda, para todos, sem respeito, sem direito à diferença.
Na enorme esplanada do recinto anexo à capela das aparições, agora limitada pela Igreja da Santíssima Trindade, desenha-se o carreiro das promessas, levadas à Capela com joelhos maltratados de penitências.
Anexo presencia-se o fulgor das chamas, ora vivas e espevitadas ora lamacentas, quase findas, contra um fundo negro de carvão. Apressam-se as mãos a depor os toucos de estearina, sob o calor abrasador da fornalha, logo dando lugar à pungência do olhar que permanece no pedido contra a desilusão da estearina minguada a apagar-se, ao capricho de uma rabanada de vento que para ali passou despreocupadamente.Todos os dias renova-se o stock. Verifica-se o prazo de validade. Arruma-se a montra. Trocam-se os bonés com os garrafões e estes com os crucifixos.
Para o cliente.
Em Fátima, tudo se vende tudo se troca.
Que desilusão! Que pena!

2 comentários:
Pois é, amigo, não faz muita diferença dos "gifts" da Shell, a não ser, eventualmente a "concha" protectora da igreja católica e o certificado de 2000 anos de garantia. Em Fátima não se vende o boné ou o kit de sextavadas interiores do Schumacher mas, vendem-se promessas de ver as promessas cumpridas e já faltou mais para se venderem bonequinhos do Sócrates para a prática de voodoo...
Que desilusão, que pena...e que texto tão bom. Tão certeiro, infelizmente.
O merchandizing da fé.
A prova inequívoca de que o princípio verdadeiro - puro - há muito que anda perdido, de mãos à frente do rosto, a tapar a vergonha. Assim se transforma algo de belo numa coisa feia; um fervor de coração e mente numa mentira, num negócio interessado, interesseiro...e muito pouco interessante.
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