7 de abril de 2010

Não haverá por aí mais um túnel em perigo de derrocada?


Tenho tido uma relação com Lisboa que não consigo arrumar com facilidade.  
A grande responsável por essa relação é a minha mania de vadiar nas suas ruas, avenidas, vielas e por aí adiante.
Tudo deve ter começado, conscientemente, quando transitava dos meus 7 para os meus 8 anos.  Corriam os anos 1964-1965.  Mais ou menos por aí.
Mantido na Guiné, com efémeras experiências da então metrópole, sempre na época natalícia, ficaram registadas sensações que mantenho, quase como um activo.
As primeiras sensações de que me recordo, foram o frio, o escuro, a quantidade de brancos, a fruta e a roupa. Nunca tinha sentido tanta falta do calor, que julgava, até aí, pertença minha, garantida. Por aqui anoitecia cedo e clareava tarde. Todos brancos. Não havia um único negro com quem brincar. A fruta, essa, não se apanhava das árvores, não senhora, era preciso ir ao "lugar", designação que eu até aí tinha como sinónimo de local, sitio, e escolhe-la, azeda, com sabor a não sei o quê, sem cheiro, sem cor.  Não se apanhava das árvores até porque estas nem sequer tinham folhas quanto mais frutos. Embrulhavam-me e enrolavam-me calças, peúgas, camisola interior que me dava uma comichão nunca experimentada, e não contentes, por cima da camisa caía uma pesada camisola. Quando saía ainda havia lugar a um casaco que mais tarde vim a descobrir ser uma canadiana, que como o nome indica vem do Canadá e não da Guiné.
É fácil concluir que sentia um sério alívio quando, depois, me sentava no meu lugar do Super Constellation da TAP, com quatro imponentes motores a hélice e rumava a Bissau com paragem no Sal, para uma omeleta que eu devorava com um apetite que não consigo explicar.  Era quase como o regressar a casa depois de umas merecidas férias num safari daqueles do canal Odisseia!
Depois, a frequência do regresso a Lisboa foi aumentando e acabei por ir transformando todas aquelas experiências exóticas nas banalidades do dia-a-dia a que não ligamos nada.  Apaixonei-me por ela.
Comecei entretanto a tirar fotografias (não sou fotógrafo, que para isso não tenho coragem nem vontade, mas gosto de tirar fotografias").  Adolescente, optava muitas vezes por andar com a Nikon ao tiracolo, a vadiar por Lisboa, em vez de me encafuar numa garagem escurecida e cheia de bons motivos para lá permanecer, como as musiquinhas que na altura se dançavam, em linguagem fotográfica, num close up cerrado, e a miudagem do outro género, o feminino, que como eu, começava a descobrir outras utilidades para um conjunto alargado de órgãos que não vou agora e aqui citar, quanto mais não seja pelo inútil que é!
Já nessa altura vadiava por Lisboa!  E ainda agora o faço, tendo trocado o excesso de testosterona por uma dose massiva de estatinas e beta bloqueantes!
E o que vejo, o que registo e o que sinto, não me agrada.
Salvam-se algumas excepções, como foi a recuperação da envolvente da Estação  do Rossio, de que dou aqui testemunho em fotografia e recomendo.  Muito tempo uma zona degradada, que Lisboa escondia envergonhadamente deixando que se inundasse de automóveis sôfregos de lugar, ali mesmo ao lado da Rua 1º de Dezembro.
E se não tivesse havido perigo eminente de desabamento do túnel? Será que este espaço estaria recuperado e devolvido à utilização de todos?  Duvido, mas duvido mesmo muito!
Se calhar precisamos de mais desabamentos iminentes para a malta que tem a lata de se propor ser mandatada pelo povo para fazer isto e aquilo, começar a perceber que basta vadiar pela cidade, sem ir muito longe, para dar de caras com um sem número de túneis do Rossio!
Peguem numa máquina fotográfica, até pode ser uma Lomo, e vadiem ou se quiserem vagueiem por Lisboa, vão ver que se fartam de aprender coisas e no fim do passeio, em vez de se meterem no Colombo ou noutra coisa do género, fiquem-se pela esplanada da dita estação do Rossio.  Vão ver que ainda vale a pena!


1 comentário:

Nana Sousa Dias disse...

Estação do Rossio!!!!Ora aí está um sítio onde eu não vou há muito tempo. Vaguear por Lisboa é outra coisa que não faço há muito tempo, provavelmente, à cause de andar sempre cheio de cornetas quando vou a Lisboa, como vai ser o caso amanhã. Mas, lembras bem, a cidadezita é cheia de bonecos à espera de serem "feitos", será uma das coisas a fazer, armado com a minha P&S de 4x5" e um belo HP5+, pois claro...