10 de março de 2010

Projecto Fotográfico #5

Um de estes dias, levantei-me com a energia que me vinha faltando e lancei mãos à obra.  Uma descida, com fragância “radical”, até à Praia da Ursa.
Já estou a ver a malta do “mantém-te em forma” a desdenhar esta minha acção! O quê, isso, radical.  Pfff?
Ah pois é!  E se a descida não for, como o regresso é inevitável, aquela subida, não sendo radical, penosa é certamente.  Em especial para quem colecciona uns quantos bypasses!
Mas, mesmo assim, lá fui, com todas aquelas coisas que um fotógrafo deve transportar, inclusive o filho que do alto do seu metro e noventa e 100 Kg pode muito bem acartar com o pesum que o seu progenitor já muito dificilmente atura!
E em boa hora o fiz.  Que dia!  Aquilo estava mesmo feito para workshop de fotografia de paisagem, a cores ou a preto e branco, com ou sem modelos meio incrustados nas saliências rochosas.  Seria o paraíso, não fora permanecer no meu consciente a obrigatoriedade de voltar para casa e com isso vencer aquele talude digno de filme de terror.
Enquanto esperava pelo “momento decisivo”, teimavam em vir à memória as sábias palavras do meu amigo Nanã Sousa Dias: “Ó sr. engenheiro, (isto não tem nada de pedantismo, é assim que ele me trata quando carinhosamente quer enfatizar a mensagem, acresce que até sou daqueles reconhecidos pela respectiva ordem,) ó sr. engenheiro, à Ursa, lá a baixo, só de helicóptero e mesmo assim ….”
Mesmo assim, ali estava eu, o meu filho e uma enormidade de equipamento à espera do tal momento, que muito provavelmente de decisivo acabaria por ter muito pouco, de costas para a falésia, não fosse ter a infeliz ideia de olhar para trás.  Faz de conta que aquela coisa ali não estava e que por influência de um qualquer Merlin do Séc. XXI, em vez de degraus grosseiros e dimensionados à custa das poucas raízes que por ali emagrecem e dos calhaus que persistem em desobedecer à lei da gravidade, em vez disso, um luzidio elevador convidava a um regresso descansado e sem pastilhas de nitroglicerina!
Entretanto decidi que o momento decisivo tinha chegado. Como sempre, em meia dúzia de minutos tentei condensadamente completar o “workflow” (fica sempre bem um palavrão destes) de várias exposições.  Pelo menos aquelas que me tranquilizavam quanto ao alcance do meu objectivo.
O resultado foram alguns postais de que não me envergonho, uma canseira desmesurada e a renovação do stock de comprimidos de nitroglicerina, porque alguns dos que tinha já haviam ultrapassado o seu prazo de validade.

Acho que quando lá voltar, vou aproveitar a boleia do Nanã!

1 comentário:

Vera de Vilhena disse...

Ó Fernando, estes seus relatos fotográficos são verdadeiras crónicas literárias! Acabei de jantar e estas linhas bem temperadas serviram-me de sobremesa e digestivo, a acompanhar o cafezinho! Parabéns pela foto, que não podia ser menos digna de vergonha Hoje fomos ver a praia de Ribeira d'Ilhas e a de S.Lourenço, que estão irreconhecíveis depois dos temporais. Claro que o Nanã registou devidamente a metamorfose costeira. Não sei se teremos época balnear por aqui este verão...