26 de junho de 2008

E sem tecnologia, como seria ?


Grandes é que está a dar!
Está na moda. E se está na moda é bom!
Está na moda a opção de imprimir em grandes tamanhos, mesmo que a imagem seja medíocre e/ou não traga nada de novo. É por causa do impacto, diz-se a maioria das vezes.
Mas que impacto? Sermos obrigados a olhar para uma coisa cuja dimensão desculpa ou esconde os erros patentes e ampliados? Isto faz-me sempre lembrar as “grandes obras” carregadas de novo-riquismo, mas isso fica para a próxima, a que tratará do piroso, para já continuemos no presente.
Faz sentido. Se assim não fosse o que fariam os três grandes da impressão na tecnologia jacto de tinta aos seus equipamentos com 1,2m, ou mais, de boca? E a tinta, a quem se venderia? Como explicariam aos seus investidores a falta de rendibilidade do negócio?
Aliás, o problema não está na dimensão. Está, antes de mais, na facilidade com que se é capaz de obter um resultado “aceitável” contribuindo para isso o ccd da máquina digital cada vez com melhor desempenho, o algoritmo de interpolação e interpretação dos dados da própria maquina, o algoritmo do software de impressão.
É claro que sendo assim, as regras do jogo mudaram um “bocadinho”. E se juntarmos aos factores anteriores impressoras cada vez mais fáceis de utilizar, com calibração automática e outros expedientes que há bem pouco tempo consumiam esforços assinaláveis (e afastavam muitos dos tais resultados razoáveis), somos, inevitavelmente, obrigados a concluir que hoje, mais do que nunca, grande parte do deste “talento” pode ser comprado.
Hoje, mais do que nunca, o dinheiro permite aceder a um conjunto de tecnologias que, permitindo alcançar rapidamente resultados razoáveis, tem vindo a catalizar o aparecimento de uma avalanche de curiosos que, na ânsia de exibirem os seus faustosos umbigos esquecem a mais elementar das regras dos verdadeiramente grandes: modéstia e trabalho duro!
É minha convicção que não se trata de saber se o “mestre x” ou o “y” aderiam ou não às novas tecnologias, a questão que julgo deva ser colocada é a de saber se esses mestres, seja com esta ou aquela tecnologia, pactuariam e seguiriam o facilitismo e modismo que hoje se aceita como válido!
É que, mesmo com as inovações exponênciais e com a qualidade de reprodução da nossa realidade, que alguns já defendem superar a das tecnologias mais tradicionais, julgo que muito dificilmente se encontrará o trabalho de alguém que tenha já superado aquilo que as “velhas” tecnologias já conseguiram!
Persisto na convicção que não se deve confundir tecnologia com facilidade, embora uma das consequências imediatas dessa mesma tecnologia seja justamente a facilidade.

A pergunta que então coloco, é a inversa: será que na ausência de todos os artefactos que a tecnologia electrónica disponibiliza, os “fotógrafos”, obrigados a voltar ao “essencial” seriam capazes das mesmas proezas, ao mesmo ritmo, ou, bem pelo contrário, aquilo que hoje é aceite pela intervenção, quase divina, de um algoritmo sofisticado, deixaria de o ser pelo simples facto que a sua ausência tornaria inevitáveis as dificuldades e falhas do fotógrafo ?

19 comentários:

Anónimo disse...

Caro FC,

A minha opinião vai no sentido de que todas essas tecnologias "facilitadoras" passaram a fazer parte da Fotografia. Evidentemente que me custa, como amador interessado, ver indivíduos sem nenhuma noção básica produzirem "trabalhos" que antes requeriam muito estudo e dedicação. No entanto, tenho que o aceitar; a tecnologia evolui, e não podemos criar "etiquetas" diferentes para a Arte só porque isso acontece. Não creio que fosse útil denominar como fotografia clássica uns trabalhos, outros como fotografia digital, outros ainda como fotografia hibrída, etc, etc. É Fotografia, ponto final. E sim, estou de acordo que cada vez mais serão necessárias menos capacidades técnicas por parte do artista, o que até pode ser benéfico na medida em que liberaliza o acesso e permite ao autor concentrar-se na componente artística.

Na prática, a massificação da tecnologia trouxe muito lixo atrás. Mas tb permitiu o aparecimento de novos talentos e o facilitar da aprendizagem.

Respondendo à questão, não acredito que os inúmeros "fotógrafos" de hoje em dia conseguissem produzir algo minimamente aceitável com as tecnologias de ontem. Mas a verdadeira questão poderá ser: e isso importa?

Abr

Anónimo disse...

Concordo com cada palavra do Mário Nogueira. É também a minha opinião.

Quanto ao tamanho das imagens, acho que também não é tão importante como isso. Eu gosto de as ver grandes, sim. As dos outros e as minhas, sempre que tal é possível. Mas não deixo de prestar a mesma atenção a uma ampliação pequena. Estive o fim-de-semana passado em Londres onde pude ver na Tate Modern uma excelente exposição: Street and Studio. É uma história do retrato de rua e de estúdio. Havia para todos os gostos. De todos os tamanhos. Prestei a todas a mesma atenção. Deliciei-me com grandes (Philipe Lorca-diCorcia, por exemplo - "snapshots" com máquina de grande formato) e com pequenas (as fotos de espanha do Cartier-Bresson, por exemplo).

Mas já agora, para fazer ampliações maiores, isso obriga a uma série de cuidados e de uma técnica mais cuidada na altura da captação. E isso é tanto mais verdade quanto mais recente for a tecnologia! Ou seja, se se usar a tecnologia mais antiga (mais difícil?) mais facilmente se conseguirão ampliações maiores. Se se usar grande formato então, é canja. Se se usar uma máquina digital, aí a coisa complica-se bastante se se quiser um resultado muito bom.

My two cents...

Anónimo disse...

Quanto ao tamanho das imagens: a minha preferência pessoal vai no sentido do tamanho ideal ser aquele até ao qual o observador pode encostar o nariz à impressão e ver detalhe. No meu caso (MF 6x4.5m, impressão digital), creio que andará pelos 30x40cm ou um pouco mais. Espero agora com o GF ganhar um pouco mais de margem de manobra.

A partir desse ponto, a coisa parece falsa, e creio que já é mais encher chouriços do que olhos... :)

Anónimo disse...

Mário Nogueira:

Quanto a ampliações a partir de um negativo de 6x4,5cm, a coisa não é bem assim.
Se o negativo estiver bem exposto, se a película tiver grão fino, por exemplo, um Kodak Tmax100, Ilford Delta 100 ou Fuji Acros, conseguem-se facilmente ampliações de 60x80cm, cheias de detalhe. Estou a falar de ampliações feitas pelo método tradicional, porque, penso que com um scanner de tambor se consegue ir além disso facilmente.

Nanã Sousa Dias

Anónimo disse...

Uma boa fotografia contínua a ser uma boa fotografia e isso é independente do meio utilizado. De facto o processamento da imagem por software veio aumentar as ferramentas, técnicas e processos do trabalho pós exposição. No entanto mesmo os fotógrafos mais conceituados de outrora corrigiam e alteravam os negativos (apesar das técnicas utilizadas na altura serem mais limitativas).
Será que, se os grandes mestres da fotografia que todos conhecemos tivessem a possibilidade de utilizar as tecnologias de hoje não o fariam? E ao utilizá-las fariam piores fotografias? Tenho muitas dúvidas.

Um Abraço.

João Rodrigues.

Almanaque Fotográfico disse...

Meu caro João, essa não me parece ser a questão!!!! Por aí estamos de acordo, certamente.
A questão que se coloca é a inversa, a rapaziada de agora será capaz de desempenho assinalável se a electrónica falhar ????

Anónimo disse...

Quanto ao novo tema, acho que a fotografia Fine Art, plena, passa por fotografar, revelar a película e ampliar ou fazer prova de contacto, sem a coisa sair das mãos do fotógrafo. A ampliação ou prova de contacto de qualidade é, também uma arte, irrepetível.
O Brett Weston destruiu todos os seus negativos quando fez 80 anos pois, deste modo, ninguém poderá "interpretar" os seus negativos de um modo diferente. Sabemos que não haveria muita gente com capacidades para reproduzir os seus negativos como ele o fez, logo, dou-lhe toda a razão para os ter destruído.

Quanto aos tamanhos grandes, concordo com o Fernando Correia, é um novo-riquismo.

Agrada-me saber que alguns fotógrafos têm ainda sucesso expondo fotografias de 20x20cm, como é o caso do Michael Kenna.

Porém, quer-me parecer que, se o Michael Kenna expusesse os seus trabalhos, sem o seu nome se fazer anunciar, digamos, em Lisboa, muita gente iria achar ridícula a exposição e tenho a certeza de que iríamos ouvir comentários do género:

"a minha EOS 400D faz melhor e munta maior que isto!"

E eu continuo, talvez teimosamente, na minha. Mostrem-me uma coisa feita em jacto de tinta, melhor do que uma fotografia bem ampliada em papel de fibra e, aí, eu mudo de opinião. Não me mostrem uma coisa que "já" é parecida ou que "atrás de um vidro, até que passa bem", mostrem-me apenas uma que é melhor.
Até lá, continuo na minha. Dá mais trabalho, sim sr, mas fica melhor e, por enquanto, sai mais barato.

O Joe Cornish já foi muitas vezes confrontado com a pergunta sacramental: "porque é que você não muda para o digital?"

Ele sempre respondeu: "Porque é que eu hei-de mudar para o digital se o 4x5" é muito melhor?"

Acho que as pessoas que lhe perguntam isto se sentiriam muito mais descansadas se ele mudasse para o digital...

O ser humano gosta de "normalizar" as coisas, dificilmente aceita a diferença.

Nanã Sousa Dias

Anónimo disse...

Quanto à questão levantada pelo FC:

"A questão que se coloca é a inversa, a rapaziada de agora será capaz de desempenho assinalável se a electrónica falhar ????"

Ao longo de 4 ou 5 anos de Workshops de Paisagem e Retrato que tenho dado e, depois de ter conhecido muita gente que, ou começou pelo 35mm e mudou rapidamente para o digital, ou começou pelo digital, tenho a certeza absoluta de que seria muito difícil.
Seriam precisos uns anitos de práctica até a rapaziada começar a tirar resultados palpáveis.

Não me parece que isso constitua um problema, para mim, o facto de se recorrer à electrónica não é um problema, as coisas evoluem.

O problema, para mim, é a maioria das pessoas ficar fascinada com fotografias que não têm nada de especial, só porque são apresentadas em 1,80x2,20m, com cores saturadíssimas e mais alguns truques de photoshop e, por outro lado, não liguem muito ou nada mesmo a fotografias realmente boas, se forem apresentadas em tamanhos pequenos.

Recentemente, fiz uma exposição em Lisboa. Havia 2 tamanhos diferentes, 30x40 e 40x50cm.
Não vi ninguém tecer comentários sobre as 30x40cm.

NSD

Anónimo disse...

Quando referi a história dos comentários às minhas fotografias não pretendia estar a impingir que as minhas fotografias eram as boas, e sim, que é curioso como as pessoas se deixam impressionar com os tamanhos maiores, mesmo que a fotografia seja pior.

NSD

Anónimo disse...

Nanã: o tamanho que referi tem a ver com o que já experimentei. Concordo em absoluto com o que disseste.

E tb continuo a gostar mais dos resultados que tu consegues, mas é um método de trabalho que não se coaduna com todos (espaço, paciência, whatever)... ;)

Abr

Almanaque Fotográfico disse...

Nanã,
Eu continuo a colocar a questão: sem as ferramentas electrónicas aqueles que hoje tanto produzem seriam capazes de o continuar a fazer?

Almanaque Fotográfico disse...

A questão do tamanho não era de forma alguma a questão central! Na verdade são bem vindas as tecnologias que passaram a estar disponíveis na impressão de grandes dimensões, mesmo aquelas que sirgiram antes da explosão do digital.
Só pretendia mostrar a "facilidade" que hoje há na opção dessas dimensões. Qualquer um se acha capaz de o fazer ....

Almanaque Fotográfico disse...

É uma espécie de "marquise"! Já viram como é fácil aumentar a casa? Basta fazer uma marquise! Já repararam na esmagadora maioria dos resultados obtidos ... catastróficos para a paisagem e ambiente.
(É claro que algumas, poucas, vezes a coisa até melhora e funciona.)

Anónimo disse...

Quanto ao comentário do FC:

"Eu continuo a colocar a questão: sem as ferramentas electrónicas aqueles que hoje tanto produzem seriam capazes de o continuar a fazer?"

Bom, vamos ver a coisa bem esmiuçada:

Produção de imagens para colocar em papel, tenho a certeza de que seria muito difícil. Muitos deixariam o Campeonato da "1ª Liga" e regressariam à 2ª ou 3ª. Então, poderá pôr-se a questão:

Estes são bons fotógrafos ou serão apenas possuidores de boas máquinas, bons editores de imagem e boas impressoras, com auto-tudo?

Um poeta, em teoria não precisa de saber ler e escrever, do mesmo modo, alguém que tenha um "olho" especial poderá conseguir boas imagens mesmo que não tenha grandes recursos técnicos. Estes foram os que mais lucraram com o aparecimento da tecnologia digital.

Poucos são os que produziam muitas e boas imagens em papel. Lembro-me de um que tinha um ritmo alucinante de produção de imagens, o Alfredo Cunha. Agora, fotografa em digital e parece-me que o seu ritmo não se alterou. O Alfredo imprimia muito bem em laboratório tradicional.

Existe agora um mundo fotográfico "virtual", o da net.
Vemos muitas fotografias no monitor, milhares, milhões, zilhões.

Muitas parecem excepcionais, no monitor.

O problema é que muitas delas nunca passarão daí, não chegarão ao papel e, se chegarem, trarão muitas desilusões. Isto já começou a acontecer há uns anitos.
Há filtros no photoshop que funcionam bem com ficheiros pequenos mas, para imprimir em tamanhos grandes, a conversa é outra.

Não me incomoda nada que apareça muita gente a fazer fotografia digital, híbrida ou analógica. O que me incomoda é que, por via da ditadura da maioria, se deixe de apreciar aquilo que é bom, para se passar a colocar a fasquia muito baixa.

A exposição de fotografias que está neste momento no Sousa Valles, por exemplo, conta com algumas fotografias de tamanhos bem grandes (eu não vi a exposição, vi apenas 3 ou 4 que tinham acabado de ser impressas)com uma qualidade que deixa muito a desejar, pois são grandes demais para a resolução da máquina utilizada.

O que me espanta é a quantidade de exposições feitas por alguns "fotógrafos" que acabaram de sair do berço fotográfico e que destam a mostrar o umbigo ainda com um bocado de cordão umbilical agarrado...

Basta que as fotografias sejam enormes...

NSD

Almanaque Fotográfico disse...

Este comentário do Nanã vem colocar as coisas mais arrumadinhas, embora me pareça que o problema possa não estar em ultrapassar o limite máximo de ampliação. Bem pelo contrário será mais o de "contornar o limite mínimo de qualidade"!

Anónimo disse...

Pois...mas isso já mexe com genuine fractals e outras coisas do género, das quais não percebo patavina.
Eu é mais tabuleiros, tanques de revelação, selénio, etc...
Deixo isso para a rapaziada da engenharia informática. ;-)

Aliás, esta coisa da informática na fotografia, confesso que me irrita um bocado. Não é só na fotografia, na música fui dos primeiros a aderir e dos primeiros a abandonar.

NSD

Anónimo disse...

Já agora aproveito para vos dar conta de uma exposição muito boa que está numa nova Galeria de Lisboa, a Pente 10, ao jardim das Amoreiras. É uma exposição da Flor Gardunho que muitos de vós conhecerão. As fotografias são grandes, cerca de 80x100 (abstenham-se de ir os que não gostam de grandes ampliações :)) e retratam mulheres. Tive o privilégio de conversar no local com a autora e ela disse-me que todas as imagens foram feitas com Leica e Hasselblad. A definição não é fantástica nalgumas, mas tal pouco me importa pois há algumas imagens que são de uma enorme beleza apesar da definição não ser assim tão grande.

A propósito: Nanã, acho que lá devias ir mostrar o teu portfólio...

As ampliações não são feitas pela senhora, mas em estreita colaboração com o seu impressor, a quem ela dá instruções exactas sobre o que pretende em cada imagem. Chegou-me a dizer que no caso em que o impressor ampliou sozinho, o resultado era muito mau. Mas acrescentou que era normal: era a interpretação dele, e não a dela! Esta senhora chegou a ser assistente do Manuel Alvarez Bravo.

Anónimo disse...

Já estive a ver: http://www.adhikara.com/flor-garduno/sitemap.htm

Tem coisas boas, sim sr, tenho de ir lá ver isto.

Quanto às grandes ampliações, não tenho nada contra, desde que o recorte/definição/resolução seja bom. Em caso contrário, acho preferível manter o "low profile". O tamanho não torna, só por si, uma fotografia, boa...

NSD

Anónimo disse...

Acho que isto está a pedir um novo tema...

NSD