
A fotografia transporta duas características genéticas: a reprodução fiel e pormenorizada da imagem e a capacidade ilimitada de ser reproduzida. Foi para isso que ela foi sendo inventada, com especial incidência e relevância desde o final do Séc. XIX. Estas duas características orientaram o seu desenvolvimento e marcam ainda o seu caminho tecnológico. Não foi por acaso que se evoluíu para o processo negativo/positivo e para as inúmeras possibilidades técnicas de reprodução das imagens.
Quer se queira quer não, aquilo que tem caracterizado uma fotografia é a sua reprodução fiel dos pormenores e a capacidade de se multiplicarem por muito as cópias/originais obtidas do negativo! Dentro das vertentes que é possível diferenciar (documental, jornalística, científica, etc...) damos constantemente quer com a utilização da fotografia na arte quer com a fotografia enquanto arte.
Nestes campos há a tendência para se desmontar esta herança genética. Na utilização da fotografia na arte são notórias as consequências: as obras tendem a ser únicas e não reproduzem fielmente a imagem.
Esta forma de encarar a fotografia, que tem as suas milícias, segue aliás as "tendências" de outras tantas formas da utilização instrumental de alguns outros meios.
Pouco me preocupa esta abordagem, tendência, disciplina ou seja o que fôr. Já assim não é quando olho para a fotografia enquanto arte!
Aceito que se torna difícil explicar o abandono de parte da herança genética. Refiro-me à capacidade de se obterem ilimitadas reproduções/originais! Na verdade há muito que se estabeleceu ser aceitável o fotógrafo limitar drasticamente o número de vezes que gera a reprodução/original. A obra tende assim a caminhar para o uníco. Conheço inúmeros mecanismos e protagonistas que o fazem ou fizeram e, se conheço bastantes, imagino o que na verdade será possível fazer a este nível!
Porém a reprodução fiel da imagem, essa, não deixou ainda de estar presente, pelo menos naqueles que advogam a disciplina dita de "fine art". Não é a cópia do que lá está. Nada disso. Há, e haverá sempre, arte de interpretar e capacidade para o transmitir!
Pelas minhas voltas por este nosso cantinho tenho procurado, há muito, ver o que por cá se tem feito de "fine art" e, meus caros, se aquilo que está feito e pronto a mostrar tivesse a visibilidade que têm as disciplinas documental e jornalística e, por maioria de razão, a visibilidade da utilização da fotografia na arte, parece-me que todos teríamos a ganhar!
Os fotógrafos, porque seriam capazes de viver melhor e com isso produzir mais, as galerias porque para além de mais uma área de negócio estariam a estimular o gosto, os coleccionadores claro está e os investidores sem dúvida nenhuma. É pois com uma enorme sensação de perda que assisto à castração sistemática desta forma de estar na fotografia perante o público português que, agora mais do que nunca, julga que uma fotografia de arte é aquilo que a engrenagem artística lhe oferece!
14 comentários:
Em primeiro lugar Fernando, uma sempre arreliadora gralha introduziu-se no teu teclado e logo no início do texto pôs-te a dizer que a fotografia se começou a desenvolver no séc IX! :)
Em relação ao resto do texto, já conversámos um pouco sobre a questão e sabes qual a minha opinião, embora esta não seja absolutamente taxativa pois falar de arte nunca será o mesmo que falar de latas de conserva...
Uma questão que não me preocupa muito na fotografia é o pormenor a que dás tanta importância, a da maior ou menor reprodução de determinada imagem. Se tratamos de fotografia documental ou fotojornalística, não nos interessa nada saber se é exemplar único ou não: vamos vê-la nos jornais e é isso que nos interessa. Se se tratar de fotografia artística essa questão é igual: acabamos mais por ver as grandes obras reproduzidas em livros do que ao vivo! O óptimo é vê-las ao vivo. É sim senhor, mas mais importante que isso é conhecê-las e compreendê-las e, para isso, é-me indiferente saber que existem 30.000 exemplares da foto que eu muito gosto, ou apenas um! Eu sei que vais dizer que se existirem 30.000 tenho mais oportunidades de a ver ao vivo, mas na verdade acho mais importante conhecer e compreender determinada fotografia. Além de que se existir apenas um exemplar e eu um dia o puder ver ao vivo isso vai tornar essa observação um momento ainda mais mágico, tal como a contemplação de determinado óleo que um dia temos finalmente oportunidade de contemplar. Mas repito, essa foto de tiragem única, cumprirá de outro modo o seu destino inicial de reprodução: será impressa em livros de grande qualidade que podemos inclusive possuir para uma fruição diária, se assim o quisermos... A acrescentar a isto, apenas o facto de que mesmo no universo da fotografia artística há de tudo em relação ao número de reproduções: desde a tiragem única, à tiragem aberta! A decisão é sempre do Autor.
Em relação à tua última afirmação também não concordo lá muito... O público português é como o público de outros países: ou não liga à fotografia enquanto arte, ou se liga, tem necessáriamente de aceitar como Arte, aquilo que as Galerias e Museus lhe dão! É assim pois são estes que decidem o que é Arte ou não é, quer queiramos quer não! E esse mesmo público, tal como nós próprios, tem ainda o direito (poderia até dizer, o dever!) de achar que para além do que estas nos indicam, achar que tal ou tal obra são igualmente Arte, ainda que não subscritas pelo Museu ou pela Galeria! Esse direito ninguém nos tira! Agora isso nunca será mais do que uma opinião nossa, pois na verdade os censores ou decisores, por muito que nos custe, são esses que referi...
Acrescente-se ainda que esses srs. nem sempre têm razão e que também erram! Mas aí entra em cena a 'patine' do tempo, que lhes virá depois dar ou tirar razão...
Já tive oportunidade de o fazer, mas agradeço de novo a militância.
É verdade, que coisa Séc. XIX!
julgo que não me fiz entender. O público não, nunca poderá ser isso. São mesmo os fazedores de opinião: galeristas, curadores, etc. que persistem em deter uma enorme responsabilidade: não mostram ao público português o que por cá e por fora se faz na chamada fine art.
Só isso!
Fernando
Não entendo onde quer chegar com múltiplos.
Quanto aos Galeristas, é tudo uma questão de lucro.
Os galeristas, são comerciantes e precisam de vender para manter a "porta aberta", logo a fotografia é pouco atractiva, pelo baixo valor e facilidade de reprodução.
Para ser pintor, há que fazer um percurso de estudos, para fazer fotografia basta ter uma camara...lol
Mas acho que o pior inimigo do fotografo são os outros fotografos e não os galeristas...
Se nos associarmos e promovermos o nosso trabalho acabaremos por levar a nossa "Arte" ao tal público, mas ninguém se dá ao trabalho.
Veja o exemplo da expo de Leiria, tivemos que fazer tudo, ninguém apareceu para ajudar (imprimir, montar, transportar, montar, desmontar) ou para visitar.
É típico...
JosePR
Acho que Portugal continua a ser o dos pequeninos.
Há uns "meninos" que acham que o que se deve mostrar ao "povo" é reportagem, por isso vemos Cartier-Bresson, Salgado, Castello-lopes, Gageiro, McCurry, Rodchenko, etc. Está encardido nestas tolas, já há 34 anos, é um tipo de fotografia que foi eleito "Campeão Nacional", tal como a Amália no fado o Eusébio no futebol o Lopes e a Mota na Maratona. Somos assim, "pequeninos", elegemos um e, para nós, basta. Quando ficam velhor ou mortos, procura-se um substituto, um Figo, um Ronaldo, uma Marisa e...chega, não temos espaço para mais...
Depois, há os outros meninos, os que decidem aquilo que não deve ser mostrado ao povo e apenas a alguns...
Estes, eu não entendo.
Fotografia Fine Art? Por cá, nunca vi...
Vi, sim, muito Finório a chamar Arte a algumas porcarias feitas com uma máquina fotográfica...
No entanto, já me disseram que o problema sou eu e, se calhar, até têm razão, pois também já me disseram muitas vezes isso em relação à música.
Estou envolvido profissionalmente na música há 26 anos e na fotografia há uns 5 ou 6 e, parece que cada vez mais percebo menos da coisa...
Nanã Sousa Dias
Pensando bem, estou-me cagando e vou fotografar aquilo que bem me apetece e tocar aquilo que bem me apetece e vou continuar a fotografar seguindo o Sistema de Zonas, porque ainda não vi nada melhor e vou continuar a revelar em N, N+1, N+2, N-1, N-2, etc, porque nunca vi nada melhor, e vou continuar a usar Grande Formato, porque nunca vi nada melhor e vou continuar a usar o meu Durst 13x18cm porque nunca vi nada melhor e vou continuar a ampliar para papel de fibra, baritado, porque nunca vi nada melhor e só mudo quando me mostrarem melhor e me convencerem do contrário! Até agora, não apareceu ninguém! Não estou a contar com os que "vêem" mal!
Aceitam-se inscrições...
Até lá, hasta la vista, baby...
Ah, já me esquecia, vou também continuar a soprar no meu Selmer, porque nunca ouvi nada melhor...
Nanã Sousa Dias
É assim mesmo Nanã!!!!
Vale a pena ires ver a exposição do Malhoa na Sociedade de Belas Artes em Lx. Ele só fazia o que queria sem se deixar influenciar pela malta de que foi contemporâneo.
Mas acho que ele já usava o Photoshop, pq os quadros tem uma luz linda que não existe.
Nunca vi nada melhor... acho que esta frase vai pegar, tal como a "Há coisas fantásticas, não há?"
Vou continua a fotografar em Digital porque apesar de já ter visto melhor, esta ferramenta-se adapta-se à minha forma de ver.
Jose Pinto Ribeiro
Quando iniciei este cantinho, a ideia era esta mesmo: discutir!
E ainda bem ...
Parece-me contudo que ainda se discute, se confronta, se estuda e depois responde. É preciso mais!
Ó Nanã, nunca vista fine art em Portugal!!! Essa é boa.
Se fosse um vulgar iluminado, ainda aceitava, agora tu, que até sabes o que por cá se vai fazendo!
Queres que eu cite alguns nomes, mesmo que sejam desconhecidos do meio, digamos, artístico!
Meu caro JPR, e porquê o lucro na Noruega ou na Alemanha, ou mesmo nos tão mal afamados EUA, para não citar muitos, muitos outros, é conseguido englobando também a qualidade a que nos referimos e cá pelo burgo, a coisa é sempre:`fotografia! pois, sabe, não há quem compre, a nossa estratégia é coisa e tal.
Tenham dó!
Porque só neste país, o zé ninguém é o Sr. Dr. ou o Sr. Eng. Só cá! Não vi nada disto por todo o resto do mundo (ok o Dr está também no Brasil). O problema não é serem os Dr ou os Eng, o problema é que são eles que compram, que vendem, que são os formadores de opinião, etc...
Conclusão, comecem agora as colecções de fotografia, que daqui a umas 2 ou 3 gerações, a malta já vai perceber ... quando deixarem de ser Drs e Engs.
Já agora, a primeira coisa que esta malta faz, é comprar o seu Audi ou o seu Range Rover e mostrar: tão a ver, tão a ver, isto é o resultado de se perceber como o caraças de arte.
Será assim????
Fernando Correia
falta, obviamente:
... se estuda e depois responde, muito pouco. É preciso mais!
Pois eu vou continuar a fazer como quero porque........ainda ninguém se queixou....!
Saudações benfiquistas
Ó Sr Engº
Eu referia-me a exposições de fotógrafos consagrados mundialmente, tipo os Westons, Adams, Sextons, etc, etc
Fine Art da outra, claro que há cá! Até há cá em casa, cacete...
NSD
Maestro,
Não estaremos a cair no mesmo e errado princípio que tão bem enunciou atrás!?
Serão precisos "monstros" nacionais para que a malta passe a reconhecer o resto dos "montrosinhos", ou, como disse, a coisa passa-se por substituição 1 morto por um vivo e fim. Como não há neste ofício nenhum morto, logo não haverá nenhum vivo ....
Eu até apostava que não são precisos monstrusidades nenhumas. Basta esperar que o tempo empurre estas nova gerações para uma coisa mais arejada, isso partindo do princípio que o sistema educativo funcionará!
Tenho dito
Fernando Correia
Sr Engº:
Nah, não me parece!
É preciso mostrar às pessoas outras coisas além da reportagem ou fotojornalismo! Eu sei bem que a maioria da malta nunca viu, ao vivo. A prova disso é que, quase toda a gente que vê as minhas fotografias ao vivo deixa saltar coisas como: "mas que é isto? Porque tem tanto recorte, em que impressora é que fizeste isto? Isto foi manipulado em photoshop? Quantos megapixeis tem a tua máquina?" Etc, etc.
Alguns fotógrafos profissionais já perguntaram que papel era aquele que nunca tinham visto...só conheciam o RC...
Ou seja, a malta que está por dentro disto, em Portugal, é uma espécie de Taliban fotográfico, fundamentalistas radicais da Fine Art, (é como me chama o meu filho) e acredita que, enquanto não começarem a aparecer umas exposições de Fine Art em sítios como o Centro Comercial Berardo (CCB) a outra malta nem sequer se vai aperceber que ela existe, pois, como sabes, tem de ser vista ao vivo, não dá para mostrar nem no monitor, nem em revistas, nem sequer em livros!
Houve tempos em que os actores e os escritores é que "mexiam" dentro da SPA (sociedade portuguesa de autores), talvez porque têm mais facilidade de comunicação, pois trabalham mais a "palavra", enquanto os músicos lidam mais com as "notas"! O facto é que, desde sempre, a SPA viveu à custa dos direitos de autor angariados pelos músicos e não pelos actores, escritores, fotógrafos ou outros. Todos se vão safando um pouco à custa dos músicos, lá dentro da SPA, há muitos anos.
Outro caso gritante é o dos críticos de Jazz, que já há muitos anos parecem ser os gajos que realmente percebem do assunto Jazz e não os músicos. O que é triste, no meio disto tudo é que, pessoas que não percebem nada do assunto, na sua essencia (a música e não as suas "historietas") sejam fazedores de opinião, e consigam mesmo convencer editoras a apostarem toneladas de dinheiro para lançarem no mercado discográfico autenticas palhaçadas.
Parece-me que se está a passar o mesmo com a fotografia, aparecem uns tipos a indicar aquilo que é ou não "Arte", dentro da fotografia. O "Bolo" da fotografia em Portugal é repartido, assim, entre os que fazem "Arte" (aqui, os fotógrafos não metem sequer o bedelho, pois, obviamente, não percebem nada disso!) e os que fazem fotojornalismo ou reportagem. O resto vai relegado para a 5ª dimensão.
De resto, quando há dinheiro, chama-se um estranja, mesmo que niguém o conheça e dá-se-lhe uma pipa de massa para ele fazer uma coisa para a qual não está muito habilitado e zás! Lembrem-se daquela campanha que foi entregue ao fotógrafo Nick Night, que fotografou algumas das nossas celebridades misturadas com fotografias de paisagem. Sim, sr, que linda campanha, onde o nome do fotógrafo aparecia nos outdoors, com letras enormes, muito maiores que os nomes das nossas celebridades. E, quanto aos retratos feitos pelo Nick, já vi melhores feitos por alunos meus, quanto às paisagens, idem...
Agora, pergunto eu, não seria mais produtivo distribuir o trabalho e a massa (cerca de 300 mil contos!) por vários fotógrafos portugueses?
Enfim, a saloiada continua...
Isso ! Isso ! Mi piagga ! Assim, sim ! A coisa começa a ter um poucochinho de "nervo"...
Mas é claro que sim!
Que sim. Aliás foi exactamente o que V.Exa. disse que eu fiz umas linhas acima.
Acontece pensar que mesmo com essa exposição da boa fotografia portuguesa (que a há para além do fotojornalismo e doutras ...), a coisa só resultará daqui a uma ou duas gerações e isto se tudo correr bem!
Pessimismo ????
Provavelmente !
Até porque incluo na renovação geracional, uma data de profissionais que percebem tanto do seu metier quento o vulgo cidadão percebe de "quark".
Quanto a distribuir a massa por uma data de fotógrafos portugueses, é claro que sim!
Não sei se foram 300.000 contos para o fotógrafo ou se foi parte disso e o resto para a campanha, mas mesmo que fossem 20% isso já seria o necessário para alguns sobreviverem melhor!
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